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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

As couves do Flávio

Pois é. Realmente andamos meio sumidos daqui. Mas não parados! Na verdade, estudando, e muito! Porque a verdade é que sem conhecimento não se vai muito longe. Nossos antepassados podiam não ter muitos livros, mas tinham a prática, que não deixa de ser conhecimento concreto. Então. Hoje nós temos livros, pesquisas, artigos e afins, mas precisamos coloca-los em prática. Já ouviram falar que "a fé sem obras é morta" né? Hoje vamos falar das couves.

As couves que temos vieram de mudas que conseguimos em Brasília-DF. Estavam muito desengonçadas e grandes... rs. Mas foi com elas que começamos.



As couves do Flávio com pitadas de Primavesi.

Ana Maria Primavesi tem sido uma das nossas autoras favoritas. Este favoritismo vem como resultado de colocar seus ensinamentos em pratica e verificar os resultados! No vídeo, mostramos um pouquinho destes ensinamentos em prática. 


As couves 15 depois!



segunda-feira, 7 de maio de 2018

Lavrador









por  Karla Caetano



Raiando o dia já vai se levantando, a cama não o segura quando os pássaros já começaram a cantar. 
Olhando pela janela, se alegra com a vista que começa a se formar diante de seus olhos. 
Hoje, como em todos os outros dias, é dia de doação.
Doação do suor do seu rosto, do sangue correndo quente nas veias, do tempo que vale mais do que a vil moeda, do sentimento de pertencimento à terra, das lembranças compartilhadas com ela. 
Doação da alma, já que a terra não só lhe impregna a pele como lhe alimenta o corpo e o espirito.
Doação das mãos calejadas árdua e docemente na labuta de cada dia de trabalho, quando joga na terra, de volta, um pequeno dízimo das sementes que ela lhe doa.
Doação da melanina que lhe cora ao estimulo do sol.
Ele sabe que se a trata com carinho, com respeito do qual sabe e sente que é digna, ela lhe será generosa. Sua amável professora de vida.
No fundo ele sente que sua doação é apenas percentual, que a doação maior é da terra.
Terra que ele ama com profundidade muito maior que os sulcos da enxada no chão, que o vazio que as raízes das mandiocas deixaram ao serem colhidas, que a profundidade das florestas invertidas do cerrado. 
Ele adquiriu o dom de ouvi-la, sabe pela cor do mato o que ela precisa.
Pelo mesmo mato, ele sabe qual foi o ultimo fruto colhido, e qual, na rotação deverá seguir.
Ele ouve dela, qual consorcio de plantas lhe será mais rentoso e  pelos pequenos seres que a habitam debaixo da serrapilheira, ele sabe como estão seus nervos. Se está calma, se está adoecida ou sã.
Se a terra adoecer ele sabe que adoecerá também e que cuidar dela é a melhor forma de cuidar de si e dos seus.
Doa a vida por ela, porque sua vida está ligada a dela. 
Faz tempo que ele aprendeu que o solo doente, dará planta fraca que só alimenta a praga para não adoecer e nem endoidecer o homem. 
Melhor que os fungos que consomem, mas que em verdade são a tropa de emergência, lhe alertem que a terra está febril e que precisa de cuidados. 
Dos cuidados certos. Dos remédios certos, que não vem rotulados e nem acompanhados de bula. 
As vezes a terra só precisa de um chá de ervança e repouso para se recuperar. E tempo.
A experiencia ensinou a ele o que ela precisa, quanto e quando precisa. 
O pagamento que ela lhe dá é melhor e maior, muito maior que qualquer quantidade de papeis impressos. 
Ela lhe retribui com saúde e vigor, e ânimo.
Para ele a terra é como um anjo, pelo qual Deus envia bençãos ou maldição. 
Sabe porém, que os incrédulos pensarão que não há ciência nisto, mas que a lei do retorno vale para qualquer um. Crente ou não.
Ele é um crente que sabe que fazendo sua parte, dia a dia, terá seu bom quinhão.
Ele ama a terra porque acredita que na natureza, amor é moeda de troca.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ana Maria Primavesi - Histórias de Vida e Agroecologia

A pedidos, começamos agora uma pequena série de indicações de livros que nos auxiliam nos trabalhos e adaptações que fazemos no nosso | Sisteminha adaptado em São Vicente
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http://chacaradonakaetana.blogspot.com.br/2018/04/literatura-para-emocionar-aos-amantes.html
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https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=kUAKhKV_U7c
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domingo, 29 de abril de 2018

Literatura para emocionar aos amantes da agroecologia.

ANA MARIA PRIMAVESI - Histórias de Vida e Agroecologia. 



Muito grata ao amigo Roberto Vizentin por apresentar a mim e ao Flávio, esta incansável guerreira. Terminei de ler ontem. Quando estava terminando, o choro veio sem que eu pudesse contê-lo. Era como se a vida dela estivesse terminando junto com o livro, e a agroecologia que nasceu com ela e foi criada por ela, estivesse morrendo, também com ela. 
Quanto aprendizado, quanta coisa essencial! 
O homem realmente perece por falta de conhecimento. Se os agricultores deste país soubessem o que sabemos agora, seria muito mais fácil viver da terra, porque ela, a terra, literalmente fala com a gente, a gente é que não aprendeu a ouvir. 
É preciso dedicação e um pouco de boa leitura. Dediquem-se. Não deixem morrer. Caso contrário, morreremos todos.

Citações de Ana:

" ficamos cientes de que, onde a técnica se choca com as leis naturais, a natureza é que prevalece e domina."

" peguemos nossa pá, perguntemos a nossa terra o que lhe está faltando e tratemo-la depois convenientemente dentro dos limites que a natureza nos impõe, e a antiga exuberância voltará aos nossos campos e a prosperidade aos nossos lares."

Parafraseando 

"A terra é verdadeiramente uma mãe. Se você a trata bem e com respeito ela te dará tudo. Se você a maltratar ela te castigará."

Nossa resenha está no vídeo abaixo




segunda-feira, 23 de abril de 2018

Puba






por Karla Caetano


Quando Mani nasceu, foi alegria para o povo.
a tez muito alva da indiazinha trazia esperança naqueles dias difíceis,
parecia sinal de Tupã
O temperamento doce da menina, parecia, alimentava a alma daqueles que tinham os corpos famintos de pão naquelas paragens.
Não durou a alegria, o brilho dos olhos de Mani foi embora,
a tribo toda chorou muito, de nada adiantou.
Para não se afastarem da lembrança da esperança que mani trazia,
sepultaram a menina ali mesmo, no chão batido da oca.
Regaram seu berço com suas lágrimas salgadas, temperando de dor
e de anseio, aquele chão. Anseio de sentir de novo o sentimento que nasceu com ela e que partiu com ela.
Do berço eterno de Mani brotou verde e tímida uma fagulha de novidade.
Encantanram-se daquilo e cuidaram do germem. Entenderam que daquela forma Tupã trazia a voz de consolo de Mani.
Um dia a terra rachou e espantados varios braços, já enfraquecidos, 
cavaram e encontraram coisa para eles assombrosa.
Mas se vinha de Mani, não podia ser mal agouro.
Debaixo da casca terrosa, outra rósea e debaixo ainda, a carne branca. De novo esperança!
Alguém teve a ideia de cozer e cheirar e provar.
Descobriram que era pão e de novo tiveram forças.
E distribuíram a semente pelo mundo, por que aquilo que traz vida tem que ser compartilhado.
Passaram-se muitos tempos.
Um caboclo esqueceu um saco de raízes no leito do rio,
o rio subiu e arrastou o saco, que se prendeu a um galho e ficou lá preso por tres dias e tres noites.
De manhã, alguém achou o saco e abriu,
não achou que o cheiro era bom, mas como havia fome novamente,
reconheceu as raízes e acreditou que se fosse morrer que não fosse do vazio de corroia e doia.
Passou a massa branca e amolecida numa peneira, viu que o mingau era denso, não tinha um tipiti, resolveu espremer num pano, catou os blocos daquele gesso e os desmanchou de novo na peneira, em cima de uma esteira, deixou que evaporasse no sol, enquanto pensava o que faria daquilo, fez mingau e deu aos filhos e  bolos envolvidos em palhas que cozeu na brasa.
E comeram, e o gosto era bom,
E esperou que todos morresem, agora sem a dor da fome,
No entanto, recuperaram as forças e novamente viveram.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Saborá









por Karla Caetano

Trigona devia chamar triguinha de tão pequeninha, 
Sanharó, Benjoim, Jandaíra-preta, Vorá, Voraz, Irapuã
Se enrosca nos cabelos da menina, assustando a menina
que quando sente o cheiro da resina perde logo o medo, sabe que não tem ferrão.

Plebeia devia chamar princesa, é filha de rainha
mas é Mosquita, Mosquitim, quando muito, Mirim e Jataí
Discreta, humilde que só ela, tem lá muito valor 
O mel meio azedinho, dito medicinal atiça cobiça
Mas onde tem flor, tem ela.

Melipona varia, mas não é variada
Não cheira a marmelo, mas a chamam Moça branca, Marmelada.
Nidifica na taboca, no oco do pau, lá no curral, 
é sim, que eu já vi.
Guarda em potes diferentes, cônicos, ovóides
o mel e o saborá.

Ápis é ápis, aqui em qualquer lugar
caucasia, italiana, alemã, africana, europa,oropa.
continua sendo ápis,
de mel dourado e cera pálida
de própolis denso e pólem rico.
Guerreiras, não aceitam brincadeiras 
só não devoram mais que as arapuás nos bananais.

















quinta-feira, 12 de abril de 2018

PANC no Sisteminha::: Palma

A palma é uma planta muito consumida no nordeste, principalmente no meio rural. Infelizmente tratada com certo preconceito em outros lugares. No vídeo de hoje veremos que deve ser tratada no seu devido valor.

É a PANC de  hoje,  e vamos trazer uma receita bem fácil e trivial.

Uma forma de fazer que usamos aqui:

Refogado de palma com milho verde 

Ingredientes - 
  • 5 ou 6 raquetes novas de palma (sem espinhos formados)
  • 5 ou 6 espigas de milho verde ;
  • Cebolinha ou cheiro verde picados;
  • Cebola picada;
  • tomatinhos (opcional).

Modo de preparo:
Corte o pé (parte mais fibrosa) de cada raquete e depois com a ajuda de um descascador de legumes retire a membrana mais grossa das folhas, pique em cubinhos e leve para aferventar e escorra. Corte o milho verde e reserve. Refogue a palma escorrida até ficar ao dente nos temperos e acerte um pouco o sal. Acrescente o milho e continue refogando, finalize jogando os tomatinhos o cheiro verde e verifique se o sal está a gosto. Sirva com arroz branco, feijão, salada ou como preferir.
Sugestão:
Pode ser uma opção rápida para o dia a dia.

Dica: É muito mucilagenosa, mas não é um problema para quem não gosta dela, é só refogar até secar ou colocar um pouco de vinagre na água e aferventar um pouco.

Indicações:
Estudos sobre os componentes nutricionais da palma forrageira indicam se tratar de um vegetal mais nutritivo do que os comumente encontrados na culinária vegetariana, como a couve, a beterraba e a banana, com a vantagem de ter baixo custo, sem pesar no orçamento das populações mais carentes. Vale reforçar que em países como o México, Estados Unidos e Japão este vegetal é um alimento nobre, tradicionalmente servido em restaurantes e hotéis de luxo, em preparos como sucos, saladas, pratos guisados, cozidos e doces. (fonte)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Tanque de alvenaria, tchau lona

Depois de pensar em muitas opções e considerar materiais disponíveis, finalmente nossa transição do tanque de lona para o permanente aconteceu. A escolha recaiu sobre o tanque de alvenaria por vários motivos. Econômicos e simbólicos.

Material disponível

O material que já tínhamos foi decisivo na escolha do tipo de tanque. A princípio havíamos pensado na placa de concreto, mas havia um material disponível que já havia sido utilizado por nós diversas vezes, foi usado no nosso reservatório de água, depois para construção da nossa bacia de evapotranspiração. Tijolos de barro de antigos fornos de carvão que já existiam na propriedade e alguns que construímos quando chegamos aqui e o carvão parecia a única opção do local. Também haviam bolas de arame de antigas cercas.

Custos

Gastaríamos R$ 100,00 com meio milheiro de tijolos e cerca R$ 400,00 com arame novo, dos quais usaríamos somente 1/4 na construção. Este era o material que já tínhamos. 
Gastamos R$26,00 em cada saco de cimento (sim! é caro aqui), num total de R$ 208,00
R$ 90,00 de areia e 
R$77,00 de brita. 
Então gastamos, tirando o material já disponível R$375,00 e nossa própria mão de obra.

Material utilizado no nosso tanque

480 tijolinhos de barro 10x20x4
300m de arame (4 fios com cerca de 20m cada, nas paredes), restante no piso
8 sacos de cimento
23 latas de brita nº0
40 latas de areia lavada grossa

Etapas


1- Primeiro foi feita a amarração no piso, com sobras de arame vertical para altura das paredes (70cm);


2- Depois foi feito o piso com 3x1 (cimento e areia) para 1,5 de brita;

3- Foram usados meio traço de massa para assentar os tijolos espelhados na parede, o tanque de taipa foi usado como molde;

4- Conforme as paredes foram subindo, também foram sendo colocadas, fiadas de arame liso amarrando a estrutura e preenchidas com concreto entre as duas paredes;

5- A borda do tanque foi arrematada com tijolos deitados, ficando com largura de 10cm e encobrindo o preenchimento de concreto;

6- O tanque foi rebocado e posteriormente recebeu acabamento de cimento queimado, com nata aplicada com brocha;


7- Após 3 dias de cura, o tanque foi lavado e começou a ser enchido para receber os peixes.

No vídeo é possível acompanhar com mais detalhes.


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Vento furioso e brisa suave












por Karla Caetano


Estavam os dois cada um no seu canto do mundo, conforme fosse o seu mundo. 
Na onde as matas estavam preservadas, 
onde a terra estava coberta da relva, 
onde os campos se cobrissem de flores, lá estava ela. 
Suave, roçando de leve os cabelos do milho.

Na onde os desertos de areia, com mais nada além das dunas e dos animais peçonhentos que se escondem dos homens ou espreitam por eles, 
onde a terra estivesse devastada, aberta em feridas chamadas sulcos ou erosões, 
onde os campos não viam uma única árvore por quilômetros, lá estava ele. 
Furioso, varrendo o mundo e trazendo tempestades.

Lá onde houvessem os rios correndo calmos, circundados de cílios verdes, cujas raízes lhes firmavam os leitos,
onde as plantações se sombreiam e onde a micro vida é abundante, lá estava ela.
Trazendo delicadamente o aroma da lavanda ou do alecrim do campo ou do mentrasto.

Lá onde as águas fossem represadas pelo homem e suas hidroelétricas cortando o fluxo dos rios, onde as monoculturas se estendessem a perder de vista, lá estava ele.
Tentando transpassar ruidosamente as barreiras de eucalipto ou sansão do campo, estrategicamente plantados.

Certo dia, perceberam que ambos estavam tristes e embora nunca se encontrassem no mesmo lugar trocaram palavras reverberando e vibrando o ar.
Descobriram um do outro o motivo do desespero.

Ela descobrira que estava cada vez mais condenada a desaparecer, como desapareciam seus lugares de repouso. Tinha receio de sair do abrigo da terra fresca e da sombra das matas e perder os freios e a razão.

Ele estava cada vez mais solitário como também eram todos os lugares que lhe davam passagem, confessou a ela que nem sempre fora assim tempestuoso. Já fora tão manso e sereno que por muitas vezes fora confundido com ela. Agora sem tantos rios para contemplar sugava da terra nua as águas que não via para refrescar-se, ressecava as plantações e derrubava as roças ao chão. Corria desesperado em busca de um lugar onde pudesse novamente sossegar.

Naquele momento, se pudessem, se abraçariam.
Mas é certo que antes de reconhece-la ele a destruiria. Se a encontrasse primeiro.
É que por onde ele corre, as massas de ar são quentes, e ocorreria uma temida frente, provocando aumento da temperatura.
Se do contrário, ela o avistasse antes, por planar em massas de ar mais frios, ela sem querer empurraria a massa de ar quente, provocando nevoeiro, chuva e queda de temperatura.

A pensar em como andam as coisas ultimamente não seria surpresa descobrir que desde aquela conversa, apesar de tudo, eles venham repetidas vezes tentando, na busca de consolar um ao outro, se encontrar.



segunda-feira, 2 de abril de 2018

Orvalho










por Karla Caetano


Outro dia uma gota brilhante me olhava de forma persistente e eu só conseguia pensar em como ela era cativante, quase hipnotizante. 
Era madrugada ainda, sol raiando, vindo, avermelhando o céu. 
O orvalho pingava das folhas, das flores. 
A luz tímida ainda, do sol que surgia, passava por entre as gotas formando um prisma, que colorido coloria a manhã do novo dia que devagar clareava.
Eu na estrada, esperando a condução, agachada a beira da cerca, fascinada.
Quem passasse pensaria que endoideci. 
Quem dera tivesse endoidecido antes.
Diante de uma beleza tão cheia de singeleza e que eu nunca tinha tirado tempo para contemplar.
Havia algo mais, porém, além da estética que me prendia alí.
Uma coisa de passado e uma coisa de futuro que eu não sabia explicar.
Primeiro passado, se algum dia não choveu na terra, podia até ser. 
Mas o sereno noturno que orvalhava as madrugadas, este não sei de onde tirei a certeza, existiu sempre.
Por causa do respirar das plantas, que transpiram e transpirando enchem o ar de umidade que condensa e condensada, escorre pelas folhagens.
Depois futuro, porque com o sumir das matas, certamente sumirá o orvalho.
Sumindo o orvalho, sumirão as nuvens, sumirão as chuvas, sumirão as folhas e as flores.
Sumiremos nós, sucumbiremos.
Este pensamento, junto com os faróis que iluminavam a estrada me agitaram e me tiraram do torpor de pensar tão distante. 
Levantei. O orvalho também.
Segui meu caminho. O orvalho também, em vapor.
Mais tarde voltei para casa.
O orvalho voltará também, amanhã. 
E por mais quanto tempo, ainda voltará?




segunda-feira, 26 de março de 2018

Passarim








Por Karla Caetano


Lá estava ele, a um tempão, tangendo os periquitos que pousavam no milho. De repente, desistiu. Deixa eles comerem também né?  O que é que tem? Deixa. Decidiu. 
Na verdade, estava era vencido por eles, mas ponderou que era decisão dele, afinal o bichinho não tinha mesmo um milho mais gostoso que aquele por aquelas "bandas". 
Das goiabas ele desistiu de achar que todas estariam inteiras em todos os pés. O problema é que os danadinhos acham as maduras muitas vezes, antes dele. Os periquitos? Não só. Os João de barro, os sabiás, os puxa-saco-de-patrão, os bem-te-vi, até os tucanaçus. Colibri é que não, colibri corteja as flores. Mas o resto todo gosta mesmo é das frutas. Até as galinhas não resistem a um galho baixo e pesado de suculentas e coloridas e globosas e cheirosas frutas.
É barganha, afinal ninguém nunca pensou em pagar pelo trabalho deles? 
Não só por embelezar a terra, afinal os ipês se adornam de flores e aves. 
Ou de encher todo canto com seus cantos. Mas, e o trabalho da sêmea? 
Sim, por que eles saem plantando por aí desde de que a terra é a terra e ninguém se dá conta. 
As araucárias que o digam, e também as castanheiras.
O araticum, buriti e o açaí.
Jatobá, chichá e macaúba.
A calicarpa, em seus quase sete metros também o diga. 
Umas cem outras devem dizer também.
Como é que nasceu planta onde ninguém plantou é pergunta que pouca gente faz. E hoje em dia, quase ninguém faz. 
Fica aí, esse povo todo pensando que toda a vida só existiu plantadeira de soja e de milho. Fica aí, pensando que toda vida só existiu a matraca cantando no passo do agricultor na roça do feijão. 
Nem sabem da saracura-matraca e do matracão.
O palmito da juçara quase entra em extinção de tanto o homem se esbaldar do que não plantou e ninguém nunca viu uma ave lhes tacar pedras.
Deixem comer do milho, do mamão e da goiaba. 
Se disserem que em qualquer lugar do mundo se trabalha só pela comida, dirão uníssono que é escravidão. 
Ficar tangendo então, os passarim da comida, só pode ser maldade e judiação.


segunda-feira, 19 de março de 2018

A promessa









por Karla Caetano


O clima está quente, insuportavelmente quente. 
O vento passa pela porta de metal e faz cantar a porta num rangido tão insuportável quanto o calor. 
A desdem de tudo isto, lá fora uma galinha cacareja entregando que seu ninho está por perto e só de saber isto já é possível pensar no bolo da tarde. 
Por causa do bolo o próximo pensamento é quanto ao sabor e neste cismar já se esquece do calor que a esta altura já se tornou suportável, já que promete a chuva, que alegra a planta que sustem o fruto, ou se preferir a fruta. 
O bolo terá sabor da terra. Terá sabor de colheita no quintal.
Pode ser do milho verde, ainda molhado do sereno, 
Pode ser do bagaço do coco que sobrou depois da extração do leite para retirada do óleo perfumado, 
Pode ser da laranja, 
mas esta ainda não amadureceu, 
nem ela e nem a goiaba que abaixa as galhas com o peso da fartura de frutas ainda verdolentas prometendo seus sabores adocicados em cores vibrantes. 
Pensando nisto, aquele bolo, não terá aroma de laranjas tão cedo porque suas promessas ainda estão distantes. 
Talvez tenha sabores de bananas, já que estas mal mostrem o umbigo, rapidamente estão nos fazendo correr em bolos, tortas, vitaminas e doces, já que quando uma da penca se veste em tons amarelados, todas as outras a invejam. Nem prometem, quando vemos já se vestiram todas iguais.
Mas pode ser também de aipim, ou mandioca, ou macaxeira, tanto faz. Após a extração de seu suco posto para decantar o amido e deixado a fermentar para o tucupi que bem temperado, dará sabor ao peixe. A massa branca resultante poderia não prometer mais nada, só que ainda promete. Promete um bolo quente e fofo, que perfuma o forno sem muitos ingredientes que juntos aquecem a alma e saciam a fome.
Pode ser de tantas texturas, de tantas cores, de tantos perfumes. De tantas possibilidades. Depende da colheita.

terça-feira, 6 de março de 2018

Caixa e isca para Jataí - Passo a Passo

Já tivemos abelhas Jataí até em cabaças no nosso sistema, mas este projeto é seguramente um dos melhores que já vimos! E por isto consideramos importante compartilhar a informação. Esta caixa tem muitas vantagens: Custo baixo, fácil confecção, manuseio simples, rápido e limpo, espaço útil e confortável para as abelhas. São apenas algumas.




Vamos mostrar as etapas agora:

Materiais


Para a caixa

02 pedaços de madeira 10x10 
02 de 10x50 
02 de 14x50 
04 parafusos de 2,5cm 
12 ou 14 pregos 12x12 
01 ripa de 4mm de espessura de 23 cm
(a ripa de 23cm será dividida ao meio e serão duas (02) tariscas de 11,5cm)














Materiais - Para a isca

01 garrafa PET
01 pedaço de cerca de 8 cm de mangueira de chuveiro
Papelão de embalagem tipo kraft
Fita adesiva

Álcool de cereais ou água ardente
resina de propolis 

ou tintura de Propólis
Para a isca

No vídeo além de uma conversa bem interessantes sobre as abelhas há todos os passos de como a caixa foi feita.



segunda-feira, 5 de março de 2018

O homem e suas “descobertas”







Por Ana Primavesi

A Revolução tecnológica veio com tudo. A tecnologia digital, a energia atômica, o transporte aéreo, a medicina cada vez mais refinada. O homem domina as epidemias, faz transplantes, consegue aumentar em muito a vida. As sociedades mais avançadas vivem num bem estar nunca antes conhecido. O homem domina a natureza, o Mundo.
Mas ele domina mesmo?

A natureza estocou o gás carbônico que estava sobrando em forma de petróleo para não poluir a atmosfera e não criar um efeito estufa. O homem descobriu esses estoques e os usa deliberadamente soltando o gás carbônico para a estratosfera, causando o efeito estufa que a natureza temia. Agora os polos e as geleiras estão descongelando. A água nos oceanos aumenta e com isso sua pressão sobre o fundo do mar é maior. Aí, ocorreu um tsunami, um maremoto. 

O homem descobriu o átomo. Primeiro os chineses por meditação e o veneraram como o início de tudo. Depois os americanos através de física, e fizeram bombas atômicas para dominar o mundo.
Mas eles dominam a força atômica?

A natureza tinha uma válvula de segurança para que a vida do globo não degenerasse: as epidemias, pelas quais eliminava a todos que não eram mais estritamente adaptadas às condições do Globo. Existe permanentemente uma “erosão geológica”, de modo que sucessivamente faltam minerais e a vida tem de se adaptar. 

A natureza usava as bactérias e fungos como patógenos, tanto em homens como em plantas e animais para eliminar o que por causa de uma deficiência era fraco e doente, aleijado ou somente velho. Assim conseguia conservar uma vida pura e forte...

O homem descobriu as vacinas e os agrotóxicos com que defende homens e plantas contra os “patógenos”, que agora não podem mais matar os inadequados para a vida. E a vida está se degenerando. Um exemplo é uma das maiores reservas naturais do mundo, a Serengeti... Deixaram fora os predadores como leões e leopardos e pensaram que agora seria um paraíso animal. Não foi. Todos os animais degeneraram, inclusive os elefantes e tinham de reintroduzir os predadores se conservassem com saúde e não degenerassem e desaparecessem...

O homem derrubou as florestas com sua enorme biodiversidade para cultivar as terras com monoculturas.

No clima frio do hemisfério norte, introduziu a aração, isto é, o revolvimento para que a terra esquentasse mais rápido na parte de baixo depois do congelamento do inverno. Imitaram isso no clima tropical, embora a terra não estivesse congelada. Pela oxigenação radical havia um aumento explosivo de bactérias e a terra perdeu boa parte de sua matéria orgânica, que era a alimentação de sua vida. Sem vida ela compactou. Faltava ar, oxigênio. E também ficou mais ácida... aí apareceram minerais que viraram tóxicos, como o alumínio, o ferro e o manganês, que foram neutralizados com calcário. Consequentemente a terra perdeu mais matéria orgânica ficando somente um restinho muito resistente por causa de sua relação muito larga de C/N. E como as terras compactadas foram cada vez mais inadequadas para as culturas, adubou-se especialmente com nitrogênio, acabando com o resto de matéria orgânica mais resistente para aproximar a relação C/N. Aí a terra morreu de vez por falta total de comida para sua vida.

E em lugar de revitalizar a terra o homem desenvolveu uma tecnologia cada vez mais sofisticada para poder ainda produzir nestes solos mortos e explorá-los melhor antes que desertificassem completamente. A tecnologia inclui a mecanização em larga escala, abandonou-se a biodiversidade e passou-se a usar somente monoculturas como soja, milho, algodão ou cana, adubando, irrigando, defendendo-as contra parasitas que a natureza tinha mandado para eliminar essas plantas doentes por serem nutridas em desequilíbrio. Receberam 3 nutrientes em grande escala, embora plantas, animais e homens necessitem no mínimo de 45. As plantas ficaram doentes, mas os homens gastaram tanto para produzi-las que não as quis perder, e defendeu-as com substâncias muito tóxicas que aplicou, em parte diariamente. Agora tinha de comer plantas deficientes e doentes de corpo e alma, uma vez que ele somente pode receber o que a terra pode fornecer. E o agente mágico no fornecimento de nutrientes, a microvida, não existia mais.

Os defensivos clorados foram proibidos porque fizeram degenerar os genitais masculinos. Mas usam ainda deliberadamente os fosforados, que foram desenvolvidos durante a Segunda Guerra mundial como neurotóxicos para acabar com os inimigos. Ficaram neurotóxicos, embora agora usados contra insetos. Seus resíduos nas plantas causam neuroses, depressões e violência, que proliferam especialmente na juventude.

Mas também o simples desequilíbrio entre os nutrientes é nefasto. Assim, quando se aduba com muito nitrogênio,  cobre que está desequilibrado torna-se deficiente e 20 a 23% das crianças nascem paraplégicas, isto é, paralíticas. O Governo não obriga a adubar também com cobre para equilibrar nitrogênio/cobre, mas ele faz rampas de acesso para cadeiras de roda. Quando se aduba com muito fósforo, o zinco fica deficiente e muitas crianças se tornam dementes, ainda que se saiba que a administração de zinco cura a demência completamente, não se obriga a usar também a adubação com zinco, ou que se adicione zinco à alimentação das crianças. Fazem-se somente escolas para excepcionais.

Nos animais não é diferente. Havia um touro da raça Gir, que morava em Fernando de Noronha, “aposentado” mas muito querido por todos e por isso não fora abatido. Mas ele começou a subir no Palácio do Governo, entrar na secretaria e comer todos os despachos, correspondências e qualquer papelada que encontrasse. A cada vez que os guardas se descuidavam, lá estava ele comendo os documentos. Aí o governador me perguntou: o que fazer? Teriam que matar o touro? Já estava mal com o governo federal por causa disso. Eu lhe disse: não precisa matar o touro, simplesmente coloque pela manhã um pouco de farinha de ossos em seu cocho porque comer papel é sinal de que está deficiente em fósforo. Deram-no farinha de osso e nunca mais o touro subiu ao Palácio do Governo.

Ou um agricultor mudou seu gado para uma raça mais produtiva. As vacas eram bonitas e os bezerros nasceram grandes, mas morreram com um ou dois dias de vida. Não criou bezerro nenhum. Estava desesperado. Nas Universidades procuravam o vírus letal mas não podiam encontrá-lo. O homem me perguntou: o que faço? Eu respondi: dê um pouco de iodo às vacas nos últimos 2 meses de prenhez... Ele disse: não posso porque trabalho como biodinâmico e eles proíbem dar minerais. Então dê algas marinhas, insisti. Ele deu. E nunca mais morreu bezerro algum. Mais tarde descobriram que a região toda era deficiente em iodo. Solo-planta-animal-homem todos estão interligados. 

Na natureza tudo é interdependente, formando teias alimentícias.  Ela funciona em sistemas que são como máquinas complicadas e sofisticadas. Se uma peça, pequena que seja, for alterada, a máquina para. Mas a nossa ciência é analítica e trabalha somente com fatores isolados. E conforme o enfoque que se dá, a verdade é outra. Falta juntar os pontos e encarar a natureza sob um olhar que integra todos os fatores, e isso sim é a verdadeira visão ecológica.