Por Karla Caetano
Quantas vezes paramos para pensar na ação embutida na palavras que mais usamos.
Não trata-se de pergunta, mas de reflexão, na ação de refletir antes de agir.
Quantas outras vezes na desculpa de defender ao oprimido, oprimimos.
Quantas vezes uma única informação é suficiente para julgar toda a vida do julgado.
Não se trata de curar, mas de diagnosticar.
O preto, o branco
O pardo, o vermelho
O amarelo, o arco-íris
Porque importa tanto num mundo tão mestiço.
As necessidades fisiológicas, as mesmas, sempre.
Os desejos e vontades, quase sempre.
A história de cada um, guardadas algumas semelhanças, única.
Pontos de vista multidimensionais. Depende de quem vê.
Comer, beber, dormir, amar, necessidades universais de todo ser.
Espaço para estar protegidos, acolhidos, reconhecidos, necessidades de todos que não são.
Espaço para privacidades, estar só consigo, necessidades de todos que não tem.
No entanto, fadiga e enfado para os que os têm de sobra.
Oração, esperança, fé... sem obras, são nada.
Preservação, conscientização, sem mudança de comportamento, são vã perca de tempo.
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quinta-feira, 29 de agosto de 2019
terça-feira, 2 de julho de 2019
O nada
por Karla Caetano
Fico me indagando sobre o que seria um mundo vazio:
de homens e mulheres cheios de vontade aliada a ação;
de empatia que não seja para o próprio benefício;
ou daqueles que primeiro observam atentamente para depois ensinar;
de generosidade desinteressada;
ou daqueles que mesmo sem meios ou incentivo, criam bons caminhos para outros trilharem.
Fico mesmo me indagando sobre o que seria um mundo vazio:
de homens e mulheres cheios de altruísmo;
de amor que não seja o amor próprio dos ególatras;
ou daqueles que pensam da causa para o efeito;
de sabedoria aliada a bom senso;
ou daqueles que mesmo não sabendo, buscam com todas as forças e esforços, saber.
Fico ainda, me indagando sobre o que seria um mundo vazio:
de homens e mulheres cheios de respeito para com a escolha do outro;
ou daqueles que lançam a semente no solo, e regam, e zelam dela até que produza a colheita;
ou dos resilientes, que como o bambu, teimam em por-se de pé após as ventanias;
ou daqueles que lutam as boas causas, mesmo que não sejam as suas;
ou também daqueles que ensinam quando todos já desistiram.
Teimosamente me indago sobre o que seria de um mundo vazio:
de homens e mulheres que plantam tâmaras sabendo que nunca as colherão;
daqueles que batalham contra os des-progressos do progresso;
ou ainda daqueles que creem que o conhecer da história evita percalços desnecessários;
ou da energia dos jovens;
ou da experiência dos vividos.
Quanto mais me indago, mais sei que este mundo de fato, não seria.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Mormaço
Por Karla Caetano
Floriu, este mundo onde a vista alcança, floriu.
Primavera, de suas cores, da vida desperta.
Das formas e dos odores.
Meu cajú floriu;
A mangueira também.
Cagaiteira se vestiu de noiva, coberta de flores brancas.
Até a áloe, perdeu o amargor e floriu!
Ipê, que parecia igual a todo outro ipê, floriu de amarelo, outro de branco, e outro de lilás, e ainda outro, de roxo.
Cada um escolheu sua cor.
No quintal, até a cebolinha floresceu.
E flor atrai o colorido de outros bichos,
Atrai abelha,
Atrai a mamangaba,
Atrai borboleta e colibri,
Flor de pequi atrai veado campeiro,
Toda flor atrai gente, porque gente é um bicho atraído por beleza.
Nessa festa de beleza, essa gente com suas traquitanas tecnológicas não resiste.
Põe flor no cabelo e selfie,
Arremata um buquê que arruma em cima das pedras, para melhor contraste, e flash,
Depois olha com orgulho o resultado, compartilha na timeline.
Entre uma foto e outra, já ninguém se lembra do calor que antecede as chuvas,
do bafo quente dos meses de agosto,
da pressão que despenca aos pés e da fadiga que as altas temperaturas infligem.
Ninguém lembra das gotinhas fingidas que despencaram do céu acinzentado,
que encheram de esperanças, quem fechou todas as portas e janelas, fugindo dos rodamoinhos que se formaram lá fora
e que empoeiraram a casa limpa, sem nenhuma piedade.
Ninguém lembra das inúmeras vezes que disse "Acho que vai chover" em tom de prece.
Talvez porque estes momentos ninguém tenha interesse de emoldurar em fotos.
Nestes momentos, sorrisos são raríssimos e o tédio é frequente.
Entre as fotos desta primavera e das que antecederam esta não há registro de enfado.
Quem se se animou para registar o sol que se aqueceu?
Fazendo intensas, a evaporação e a transpiração das águas e das matas.
Quem pelo menos escreveu em poesia sobre o formar das nuvens para que desçam as chuvas?
Chuvas da primavera. Dos frutos que surgem das flores.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Lavrador
por Karla Caetano
Raiando o dia já vai se levantando, a cama não o segura quando os pássaros já começaram a cantar.
Olhando pela janela, se alegra com a vista que começa a se formar diante de seus olhos.
Hoje, como em todos os outros dias, é dia de doação.
Doação do suor do seu rosto, do sangue correndo quente nas veias, do tempo que vale mais do que a vil moeda, do sentimento de pertencimento à terra, das lembranças compartilhadas com ela.
Doação da alma, já que a terra não só lhe impregna a pele como lhe alimenta o corpo e o espirito.
Doação das mãos calejadas árdua e docemente na labuta de cada dia de trabalho, quando joga na terra, de volta, um pequeno dízimo das sementes que ela lhe doa.
Doação da melanina que lhe cora ao estimulo do sol.
Ele sabe que se a trata com carinho, com respeito do qual sabe e sente que é digna, ela lhe será generosa. Sua amável professora de vida.
No fundo ele sente que sua doação é apenas percentual, que a doação maior é da terra.
Terra que ele ama com profundidade muito maior que os sulcos da enxada no chão, que o vazio que as raízes das mandiocas deixaram ao serem colhidas, que a profundidade das florestas invertidas do cerrado.
Ele adquiriu o dom de ouvi-la, sabe pela cor do mato o que ela precisa.
Pelo mesmo mato, ele sabe qual foi o ultimo fruto colhido, e qual, na rotação deverá seguir.
Ele ouve dela, qual consorcio de plantas lhe será mais rentoso e pelos pequenos seres que a habitam debaixo da serrapilheira, ele sabe como estão seus nervos. Se está calma, se está adoecida ou sã.
Se a terra adoecer ele sabe que adoecerá também e que cuidar dela é a melhor forma de cuidar de si e dos seus.
Doa a vida por ela, porque sua vida está ligada a dela.
Faz tempo que ele aprendeu que o solo doente, dará planta fraca que só alimenta a praga para não adoecer e nem endoidecer o homem.
Melhor que os fungos que consomem, mas que em verdade são a tropa de emergência, lhe alertem que a terra está febril e que precisa de cuidados.
Dos cuidados certos. Dos remédios certos, que não vem rotulados e nem acompanhados de bula.
As vezes a terra só precisa de um chá de ervança e repouso para se recuperar. E tempo.
A experiencia ensinou a ele o que ela precisa, quanto e quando precisa.
O pagamento que ela lhe dá é melhor e maior, muito maior que qualquer quantidade de papeis impressos.
Ela lhe retribui com saúde e vigor, e ânimo.
Para ele a terra é como um anjo, pelo qual Deus envia bençãos ou maldição.
Sabe porém, que os incrédulos pensarão que não há ciência nisto, mas que a lei do retorno vale para qualquer um. Crente ou não.
Ele é um crente que sabe que fazendo sua parte, dia a dia, terá seu bom quinhão.
Ele ama a terra porque acredita que na natureza, amor é moeda de troca.
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Puba
por Karla Caetano
Quando Mani nasceu, foi alegria para o povo.
a tez muito alva da indiazinha trazia esperança naqueles dias difíceis,
parecia sinal de Tupã
O temperamento doce da menina, parecia, alimentava a alma daqueles que tinham os corpos famintos de pão naquelas paragens.
Não durou a alegria, o brilho dos olhos de Mani foi embora,
a tribo toda chorou muito, de nada adiantou.
Para não se afastarem da lembrança da esperança que mani trazia,
sepultaram a menina ali mesmo, no chão batido da oca.
Regaram seu berço com suas lágrimas salgadas, temperando de dor
e de anseio, aquele chão. Anseio de sentir de novo o sentimento que nasceu com ela e que partiu com ela.
Do berço eterno de Mani brotou verde e tímida uma fagulha de novidade.
Encantanram-se daquilo e cuidaram do germem. Entenderam que daquela forma Tupã trazia a voz de consolo de Mani.
Um dia a terra rachou e espantados varios braços, já enfraquecidos,
cavaram e encontraram coisa para eles assombrosa.
Mas se vinha de Mani, não podia ser mal agouro.
Debaixo da casca terrosa, outra rósea e debaixo ainda, a carne branca. De novo esperança!
Alguém teve a ideia de cozer e cheirar e provar.
Descobriram que era pão e de novo tiveram forças.
E distribuíram a semente pelo mundo, por que aquilo que traz vida tem que ser compartilhado.
Passaram-se muitos tempos.
Um caboclo esqueceu um saco de raízes no leito do rio,
o rio subiu e arrastou o saco, que se prendeu a um galho e ficou lá preso por tres dias e tres noites.
De manhã, alguém achou o saco e abriu,
não achou que o cheiro era bom, mas como havia fome novamente,
reconheceu as raízes e acreditou que se fosse morrer que não fosse do vazio de corroia e doia.
Passou a massa branca e amolecida numa peneira, viu que o mingau era denso, não tinha um tipiti, resolveu espremer num pano, catou os blocos daquele gesso e os desmanchou de novo na peneira, em cima de uma esteira, deixou que evaporasse no sol, enquanto pensava o que faria daquilo, fez mingau e deu aos filhos e bolos envolvidos em palhas que cozeu na brasa.
E comeram, e o gosto era bom,
E esperou que todos morresem, agora sem a dor da fome,
No entanto, recuperaram as forças e novamente viveram.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Saborá
por Karla Caetano
Trigona devia chamar triguinha de tão pequeninha,
Sanharó, Benjoim, Jandaíra-preta, Vorá, Voraz, Irapuã
Se enrosca nos cabelos da menina, assustando a menina
que quando sente o cheiro da resina perde logo o medo, sabe que não tem ferrão.
Plebeia devia chamar princesa, é filha de rainha
mas é Mosquita, Mosquitim, quando muito, Mirim e Jataí
Discreta, humilde que só ela, tem lá muito valor
O mel meio azedinho, dito medicinal atiça cobiça
Mas onde tem flor, tem ela.
Melipona varia, mas não é variada
Não cheira a marmelo, mas a chamam Moça branca, Marmelada.
Nidifica na taboca, no oco do pau, lá no curral,
é sim, que eu já vi.
Guarda em potes diferentes, cônicos, ovóides
o mel e o saborá.
Ápis é ápis, aqui em qualquer lugar
caucasia, italiana, alemã, africana, europa,oropa.
continua sendo ápis,
de mel dourado e cera pálida
de própolis denso e pólem rico.
Guerreiras, não aceitam brincadeiras
só não devoram mais que as arapuás nos bananais.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Vento furioso e brisa suave
Estavam os dois cada um no seu canto do mundo, conforme fosse o seu mundo.
Na onde as matas estavam preservadas,
onde a terra estava coberta da relva,
onde os campos se cobrissem de flores, lá estava ela.
Suave, roçando de leve os cabelos do milho.
Na onde os desertos de areia, com mais nada além das dunas e dos animais peçonhentos que se escondem dos homens ou espreitam por eles,
onde a terra estivesse devastada, aberta em feridas chamadas sulcos ou erosões,
onde os campos não viam uma única árvore por quilômetros, lá estava ele.
Furioso, varrendo o mundo e trazendo tempestades.
Lá onde houvessem os rios correndo calmos, circundados de cílios verdes, cujas raízes lhes firmavam os leitos,
onde as plantações se sombreiam e onde a micro vida é abundante, lá estava ela.
Trazendo delicadamente o aroma da lavanda ou do alecrim do campo ou do mentrasto.
Lá onde as águas fossem represadas pelo homem e suas hidroelétricas cortando o fluxo dos rios, onde as monoculturas se estendessem a perder de vista, lá estava ele.
Tentando transpassar ruidosamente as barreiras de eucalipto ou sansão do campo, estrategicamente plantados.
Certo dia, perceberam que ambos estavam tristes e embora nunca se encontrassem no mesmo lugar trocaram palavras reverberando e vibrando o ar.
Descobriram um do outro o motivo do desespero.
Ela descobrira que estava cada vez mais condenada a desaparecer, como desapareciam seus lugares de repouso. Tinha receio de sair do abrigo da terra fresca e da sombra das matas e perder os freios e a razão.
Ele estava cada vez mais solitário como também eram todos os lugares que lhe davam passagem, confessou a ela que nem sempre fora assim tempestuoso. Já fora tão manso e sereno que por muitas vezes fora confundido com ela. Agora sem tantos rios para contemplar sugava da terra nua as águas que não via para refrescar-se, ressecava as plantações e derrubava as roças ao chão. Corria desesperado em busca de um lugar onde pudesse novamente sossegar.
Naquele momento, se pudessem, se abraçariam.
Mas é certo que antes de reconhece-la ele a destruiria. Se a encontrasse primeiro.
É que por onde ele corre, as massas de ar são quentes, e ocorreria uma temida frente, provocando aumento da temperatura.
Se do contrário, ela o avistasse antes, por planar em massas de ar mais frios, ela sem querer empurraria a massa de ar quente, provocando nevoeiro, chuva e queda de temperatura.
A pensar em como andam as coisas ultimamente não seria surpresa descobrir que desde aquela conversa, apesar de tudo, eles venham repetidas vezes tentando, na busca de consolar um ao outro, se encontrar.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Orvalho
por Karla Caetano
Outro dia uma gota brilhante me olhava de forma persistente e eu só conseguia pensar em como ela era cativante, quase hipnotizante.
Era madrugada ainda, sol raiando, vindo, avermelhando o céu.
O orvalho pingava das folhas, das flores.
A luz tímida ainda, do sol que surgia, passava por entre as gotas formando um prisma, que colorido coloria a manhã do novo dia que devagar clareava.
Eu na estrada, esperando a condução, agachada a beira da cerca, fascinada.
Quem passasse pensaria que endoideci.
Quem dera tivesse endoidecido antes.
Diante de uma beleza tão cheia de singeleza e que eu nunca tinha tirado tempo para contemplar.
Havia algo mais, porém, além da estética que me prendia alí.
Uma coisa de passado e uma coisa de futuro que eu não sabia explicar.
Primeiro passado, se algum dia não choveu na terra, podia até ser.
Mas o sereno noturno que orvalhava as madrugadas, este não sei de onde tirei a certeza, existiu sempre.
Por causa do respirar das plantas, que transpiram e transpirando enchem o ar de umidade que condensa e condensada, escorre pelas folhagens.
Depois futuro, porque com o sumir das matas, certamente sumirá o orvalho.
Sumindo o orvalho, sumirão as nuvens, sumirão as chuvas, sumirão as folhas e as flores.
Sumiremos nós, sucumbiremos.
Este pensamento, junto com os faróis que iluminavam a estrada me agitaram e me tiraram do torpor de pensar tão distante.
Levantei. O orvalho também.
Segui meu caminho. O orvalho também, em vapor.
Mais tarde voltei para casa.
O orvalho voltará também, amanhã.
Era madrugada ainda, sol raiando, vindo, avermelhando o céu.
O orvalho pingava das folhas, das flores.
A luz tímida ainda, do sol que surgia, passava por entre as gotas formando um prisma, que colorido coloria a manhã do novo dia que devagar clareava.
Eu na estrada, esperando a condução, agachada a beira da cerca, fascinada.
Quem passasse pensaria que endoideci.
Quem dera tivesse endoidecido antes.
Diante de uma beleza tão cheia de singeleza e que eu nunca tinha tirado tempo para contemplar.
Havia algo mais, porém, além da estética que me prendia alí.
Uma coisa de passado e uma coisa de futuro que eu não sabia explicar.
Primeiro passado, se algum dia não choveu na terra, podia até ser.
Mas o sereno noturno que orvalhava as madrugadas, este não sei de onde tirei a certeza, existiu sempre.
Por causa do respirar das plantas, que transpiram e transpirando enchem o ar de umidade que condensa e condensada, escorre pelas folhagens.
Depois futuro, porque com o sumir das matas, certamente sumirá o orvalho.
Sumindo o orvalho, sumirão as nuvens, sumirão as chuvas, sumirão as folhas e as flores.
Sumiremos nós, sucumbiremos.
Este pensamento, junto com os faróis que iluminavam a estrada me agitaram e me tiraram do torpor de pensar tão distante.
Levantei. O orvalho também.
Segui meu caminho. O orvalho também, em vapor.
Mais tarde voltei para casa.
O orvalho voltará também, amanhã.
E por mais quanto tempo, ainda voltará?
segunda-feira, 26 de março de 2018
Passarim
Por Karla Caetano
Lá estava ele, a um tempão, tangendo os periquitos que pousavam no milho. De repente, desistiu. Deixa eles comerem também né? O que é que tem? Deixa. Decidiu.
Na verdade, estava era vencido por eles, mas ponderou que era decisão dele, afinal o bichinho não tinha mesmo um milho mais gostoso que aquele por aquelas "bandas".
Das goiabas ele desistiu de achar que todas estariam inteiras em todos os pés. O problema é que os danadinhos acham as maduras muitas vezes, antes dele. Os periquitos? Não só. Os João de barro, os sabiás, os puxa-saco-de-patrão, os bem-te-vi, até os tucanaçus. Colibri é que não, colibri corteja as flores. Mas o resto todo gosta mesmo é das frutas. Até as galinhas não resistem a um galho baixo e pesado de suculentas e coloridas e globosas e cheirosas frutas.
É barganha, afinal ninguém nunca pensou em pagar pelo trabalho deles?
Não só por embelezar a terra, afinal os ipês se adornam de flores e aves.
Ou de encher todo canto com seus cantos. Mas, e o trabalho da sêmea?
Sim, por que eles saem plantando por aí desde de que a terra é a terra e ninguém se dá conta.
As araucárias que o digam, e também as castanheiras.
O araticum, buriti e o açaí.
Jatobá, chichá e macaúba.
A calicarpa, em seus quase sete metros também o diga.
Umas cem outras devem dizer também.
Como é que nasceu planta onde ninguém plantou é pergunta que pouca gente faz. E hoje em dia, quase ninguém faz.
Fica aí, esse povo todo pensando que toda a vida só existiu plantadeira de soja e de milho. Fica aí, pensando que toda vida só existiu a matraca cantando no passo do agricultor na roça do feijão.
Nem sabem da saracura-matraca e do matracão.
O palmito da juçara quase entra em extinção de tanto o homem se esbaldar do que não plantou e ninguém nunca viu uma ave lhes tacar pedras.
Deixem comer do milho, do mamão e da goiaba.
Se disserem que em qualquer lugar do mundo se trabalha só pela comida, dirão uníssono que é escravidão.
Ficar tangendo então, os passarim da comida, só pode ser maldade e judiação.
segunda-feira, 19 de março de 2018
A promessa
por Karla Caetano
O clima está quente, insuportavelmente quente.
O vento passa pela porta de metal e faz cantar a porta num rangido tão insuportável quanto o calor.
A desdem de tudo isto, lá fora uma galinha cacareja entregando que seu ninho está por perto e só de saber isto já é possível pensar no bolo da tarde.
Por causa do bolo o próximo pensamento é quanto ao sabor e neste cismar já se esquece do calor que a esta altura já se tornou suportável, já que promete a chuva, que alegra a planta que sustem o fruto, ou se preferir a fruta.
O bolo terá sabor da terra. Terá sabor de colheita no quintal.
Pode ser do milho verde, ainda molhado do sereno,
Pode ser do bagaço do coco que sobrou depois da extração do leite para retirada do óleo perfumado,
Pode ser da laranja,
mas esta ainda não amadureceu,
nem ela e nem a goiaba que abaixa as galhas com o peso da fartura de frutas ainda verdolentas prometendo seus sabores adocicados em cores vibrantes.
Pensando nisto, aquele bolo, não terá aroma de laranjas tão cedo porque suas promessas ainda estão distantes.
Talvez tenha sabores de bananas, já que estas mal mostrem o umbigo, rapidamente estão nos fazendo correr em bolos, tortas, vitaminas e doces, já que quando uma da penca se veste em tons amarelados, todas as outras a invejam. Nem prometem, quando vemos já se vestiram todas iguais.
Mas pode ser também de aipim, ou mandioca, ou macaxeira, tanto faz. Após a extração de seu suco posto para decantar o amido e deixado a fermentar para o tucupi que bem temperado, dará sabor ao peixe. A massa branca resultante poderia não prometer mais nada, só que ainda promete. Promete um bolo quente e fofo, que perfuma o forno sem muitos ingredientes que juntos aquecem a alma e saciam a fome.
Pode ser de tantas texturas, de tantas cores, de tantos perfumes. De tantas possibilidades. Depende da colheita.
segunda-feira, 5 de março de 2018
O homem e suas “descobertas”
Por Ana Primavesi
A Revolução tecnológica veio com tudo. A tecnologia digital, a energia atômica, o transporte aéreo, a medicina cada vez mais refinada. O homem domina as epidemias, faz transplantes, consegue aumentar em muito a vida. As sociedades mais avançadas vivem num bem estar nunca antes conhecido. O homem domina a natureza, o Mundo.
Mas ele domina mesmo?
A natureza estocou o gás carbônico que estava sobrando em forma de petróleo para não poluir a atmosfera e não criar um efeito estufa. O homem descobriu esses estoques e os usa deliberadamente soltando o gás carbônico para a estratosfera, causando o efeito estufa que a natureza temia. Agora os polos e as geleiras estão descongelando. A água nos oceanos aumenta e com isso sua pressão sobre o fundo do mar é maior. Aí, ocorreu um tsunami, um maremoto.
O homem descobriu o átomo. Primeiro os chineses por meditação e o veneraram como o início de tudo. Depois os americanos através de física, e fizeram bombas atômicas para dominar o mundo.
Mas eles dominam a força atômica?
A natureza tinha uma válvula de segurança para que a vida do globo não degenerasse: as epidemias, pelas quais eliminava a todos que não eram mais estritamente adaptadas às condições do Globo. Existe permanentemente uma “erosão geológica”, de modo que sucessivamente faltam minerais e a vida tem de se adaptar.
A natureza usava as bactérias e fungos como patógenos, tanto em homens como em plantas e animais para eliminar o que por causa de uma deficiência era fraco e doente, aleijado ou somente velho. Assim conseguia conservar uma vida pura e forte...
O homem descobriu as vacinas e os agrotóxicos com que defende homens e plantas contra os “patógenos”, que agora não podem mais matar os inadequados para a vida. E a vida está se degenerando. Um exemplo é uma das maiores reservas naturais do mundo, a Serengeti... Deixaram fora os predadores como leões e leopardos e pensaram que agora seria um paraíso animal. Não foi. Todos os animais degeneraram, inclusive os elefantes e tinham de reintroduzir os predadores se conservassem com saúde e não degenerassem e desaparecessem...
O homem derrubou as florestas com sua enorme biodiversidade para cultivar as terras com monoculturas.
No clima frio do hemisfério norte, introduziu a aração, isto é, o revolvimento para que a terra esquentasse mais rápido na parte de baixo depois do congelamento do inverno. Imitaram isso no clima tropical, embora a terra não estivesse congelada. Pela oxigenação radical havia um aumento explosivo de bactérias e a terra perdeu boa parte de sua matéria orgânica, que era a alimentação de sua vida. Sem vida ela compactou. Faltava ar, oxigênio. E também ficou mais ácida... aí apareceram minerais que viraram tóxicos, como o alumínio, o ferro e o manganês, que foram neutralizados com calcário. Consequentemente a terra perdeu mais matéria orgânica ficando somente um restinho muito resistente por causa de sua relação muito larga de C/N. E como as terras compactadas foram cada vez mais inadequadas para as culturas, adubou-se especialmente com nitrogênio, acabando com o resto de matéria orgânica mais resistente para aproximar a relação C/N. Aí a terra morreu de vez por falta total de comida para sua vida.
E em lugar de revitalizar a terra o homem desenvolveu uma tecnologia cada vez mais sofisticada para poder ainda produzir nestes solos mortos e explorá-los melhor antes que desertificassem completamente. A tecnologia inclui a mecanização em larga escala, abandonou-se a biodiversidade e passou-se a usar somente monoculturas como soja, milho, algodão ou cana, adubando, irrigando, defendendo-as contra parasitas que a natureza tinha mandado para eliminar essas plantas doentes por serem nutridas em desequilíbrio. Receberam 3 nutrientes em grande escala, embora plantas, animais e homens necessitem no mínimo de 45. As plantas ficaram doentes, mas os homens gastaram tanto para produzi-las que não as quis perder, e defendeu-as com substâncias muito tóxicas que aplicou, em parte diariamente. Agora tinha de comer plantas deficientes e doentes de corpo e alma, uma vez que ele somente pode receber o que a terra pode fornecer. E o agente mágico no fornecimento de nutrientes, a microvida, não existia mais.
Os defensivos clorados foram proibidos porque fizeram degenerar os genitais masculinos. Mas usam ainda deliberadamente os fosforados, que foram desenvolvidos durante a Segunda Guerra mundial como neurotóxicos para acabar com os inimigos. Ficaram neurotóxicos, embora agora usados contra insetos. Seus resíduos nas plantas causam neuroses, depressões e violência, que proliferam especialmente na juventude.
Mas também o simples desequilíbrio entre os nutrientes é nefasto. Assim, quando se aduba com muito nitrogênio, cobre que está desequilibrado torna-se deficiente e 20 a 23% das crianças nascem paraplégicas, isto é, paralíticas. O Governo não obriga a adubar também com cobre para equilibrar nitrogênio/cobre, mas ele faz rampas de acesso para cadeiras de roda. Quando se aduba com muito fósforo, o zinco fica deficiente e muitas crianças se tornam dementes, ainda que se saiba que a administração de zinco cura a demência completamente, não se obriga a usar também a adubação com zinco, ou que se adicione zinco à alimentação das crianças. Fazem-se somente escolas para excepcionais.
Nos animais não é diferente. Havia um touro da raça Gir, que morava em Fernando de Noronha, “aposentado” mas muito querido por todos e por isso não fora abatido. Mas ele começou a subir no Palácio do Governo, entrar na secretaria e comer todos os despachos, correspondências e qualquer papelada que encontrasse. A cada vez que os guardas se descuidavam, lá estava ele comendo os documentos. Aí o governador me perguntou: o que fazer? Teriam que matar o touro? Já estava mal com o governo federal por causa disso. Eu lhe disse: não precisa matar o touro, simplesmente coloque pela manhã um pouco de farinha de ossos em seu cocho porque comer papel é sinal de que está deficiente em fósforo. Deram-no farinha de osso e nunca mais o touro subiu ao Palácio do Governo.
Ou um agricultor mudou seu gado para uma raça mais produtiva. As vacas eram bonitas e os bezerros nasceram grandes, mas morreram com um ou dois dias de vida. Não criou bezerro nenhum. Estava desesperado. Nas Universidades procuravam o vírus letal mas não podiam encontrá-lo. O homem me perguntou: o que faço? Eu respondi: dê um pouco de iodo às vacas nos últimos 2 meses de prenhez... Ele disse: não posso porque trabalho como biodinâmico e eles proíbem dar minerais. Então dê algas marinhas, insisti. Ele deu. E nunca mais morreu bezerro algum. Mais tarde descobriram que a região toda era deficiente em iodo. Solo-planta-animal-homem todos estão interligados.
Na natureza tudo é interdependente, formando teias alimentícias. Ela funciona em sistemas que são como máquinas complicadas e sofisticadas. Se uma peça, pequena que seja, for alterada, a máquina para. Mas a nossa ciência é analítica e trabalha somente com fatores isolados. E conforme o enfoque que se dá, a verdade é outra. Falta juntar os pontos e encarar a natureza sob um olhar que integra todos os fatores, e isso sim é a verdadeira visão ecológica.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Antes da estrada
Por Karla Caetano
Ia sacolejando, sentada nos bancos hora empoeirados, hora emlameados da velha van que mais se assemelhava a um carro de guerra tentando romper a estrada. Estrada nunca fácil. Sempre longa demais nos seus poucos quilómetros. Por ser longa demais, viajar por ela me levava além dela, em pensamentos distantes. Cada trecho remetia a um pensamento sem tempo e nem espaço, aparentemente muito abstrato. As velhas barrigudas corriam ao lado mesmo que estivessem paradas em seus quase eternos lugares. São majestosas as barrigudas. Entrecortando a visão do horizonte distante. Entre elas, a estrada e o horizonte, pontos brancos preguiçosamente pastejam o verde. Gado branco, cuja história começa em outro continente, mas termina aqui em outro distante. Talvez por causa dele, a estrada, que nem sempre existiu, mas que existe e precisa ser penosamente trasposta. O céu azul quase sempre, ainda. Nuvens que mais parecem borrões de um artista que se cansa delas e constantemente as pinta de novo. As vezes se derramam na estrada e a tornam mais longa e cansativa e escorregadia. Muitas vezes não se derramam e a tornam insuportável, esbraquiçada de pó, que invade os pulmões sem pedir licença. A estrada é sempre a mesma. O que muda são os humores dela, ou de quem passa por ela. Há que se passar por suas provas e há quem diga que mais importante que o destino é o caminho. Eu digo que mais importante que o caminho é a viagem que fazem os pensamentos que passam por ela. A estrada nem sempre existiu, mas os caminhos sempre. Um dia um caminhante cismou de fazer a estrada para que todos fossem obrigados a passar por ela. Tolo. Nem todos passam por ela e os que passam nunca fazem o mesmo caminho. A única coisa que não muda é a terra, que mesmo pisoteada, pastada, lavada pelas enxurradas, revirada ou empurrada de um lado para outro e de volta ao mesmo lado, está lá assistindo e contando a história dos tempos para quem quer que queira saber. A questão é que a história é muito mais longa, infinitamente mais longa que a estrada que passa por ela e pela qual somos impelidos a passar também, em algum ou em muitos momentos. Fatigados ou prazerosos. Vai depender dos humores e da disposição. Da estrada e de quem passa por ela.
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
Mamangaba na janela
Por Karla Caetano
Uma mamangaba raramente ferroa, dizem; a não ser que seja provocada; quando isso ocorre, porém, a sua ferroada é muito dolorosa, dizem. Não sei. Felizmente nunca senti que deveria provocar nenhuma. Dizem também que diferente de outras abelhas, ela não morre ao ferroar, podendo repetir a dose se sentir necessário. Pelo tamanho que é, melhor seria não mexer com uma delas.
Outro dia, pude ver muito bem e de perto, arriscando-me, uma que teimava em tentar voar através do vidro da janela. Acho que abelhas e passarinhos nunca entenderão que força é esta que os segura no lugar, como uma parede que não podem sequer imaginar, quando o horizonte para onde querem alçar voo é tão visível e está logo à frente. Acontece que as flores do maracujá do mato estão se abrindo e seu perfume suave e adocicado é evidentemente algo a que não podem, e nem devem, resistir. O fruto depende dela, talvez mais, do que ela, dele. Ela tem outras flores para cheirar, dançar e saracotear em cima. Adora as raras, esparças e por isso, esnobes, flores da ora-pro-nobis. Mas o maracujá do mato, tem desaparecido dos cerrados. Não há nele interesse de mercado, talvez por ser miúdo comparado ao outro, talvez por ser tão sazonal. Não sei. Não há dedos em luvas de algodão roçando seus pistilos cobertos de pólem e tocando outros, das flores adjacentes, na tentativa desajeitada e indelicada, de imitar as abelhas, só que as pressas, que tempo é dinheiro, sem voo e sem dança, para assim, sem poesia alguma, poloniza-los a tempo de garantir a safra.
Eu soube outro dia, que existe uma Lei, pra salvar o mangangá, como é chamado em tupi. Pela sua importância na polinização de vários tipos de plantas, principalmente o maracujá, não o do mato, de sumo branco-leitoso e aromático. A perseguição do muganga, sim, mais outro nome, ou sua destruição, caça ou apanha é proibida no Brasil. Felizmente. Mais o bichinho não sabe e muita gente também não. Verdade que não se vê por aí contrabando deles, nem campanhas de ódio contra ele, sim porque hoje em dia o ódio é moda. Mas de que adianta se dão fim aos maracujás nas queimadas ou na formação de pastagens, ou nas pulverizações de lavouras, ou na criação de desertos verdes de eucaliptos ou outra espécie viável aos bolsos já fartos, nem que seja das dívidas acumuladas pela vida e com a vida.
Mas voltando ao vidro, voltando ao mangangá, deixei-o lá lutando com ele. Me acovardei em tentar ajuda-lo a encontrar a saída logo ao lado, por que a janela estava aberta. Tive medo da ferroada. Achei que ele na tentativa louca de alçar seu voo ao infinito e aos perfumes florais, lá de fora, acabaria por encontrar sua saída.
Mais tarde quando voltei, perdida no meio das labutas do dia, já esquecida, ou talvez crendo que o bichinho aquela hora já se refastelava nos brancos e lilases daquela flor de maracujá, cuja trepadeira se agarrava ao pé das pinhas, ali tão perto da janela. Vi o que me arrependi de ver. Decepção. Vi suas grandes asas negras na boca de um calango de convenção, a majestosa abelha foi o seu lanche aquela tarde.
Concluí que o homem é sempre, ou na maioria das vezes, culpado por suas escolhas, nem que seja pela omissão.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
O corte
Por karla Caetano
Ele disse para ela: O corte manual dos teus emaranhados verdes é mais caro, o resultado é melhor e é mais suor salgando seu chão, dona Terra...
mas... você ficará agradecida.
Pareceu muito franco, muito certo do que dizia, mas, sem nenhum tom de promessa. Era como se aquilo também dependesse dela. Ela ficou muda, em palavras, por que palavras não são a sua forma de falar. Ela fala de outras formas e somente mais tarde é que ele saberia o quanto a sua proposta a agradaria ou não.
Outros vieram antes dele, muitos outros. Com máquinas e traquitanas que traziam a proposta da modernidade. Mais do que o corte drástico de suas madeixas clorofiladas, propuseram radicalismos que a deixaram exposta. Era preciso, diziam. Para que seus novos rebentos viessem em vigorosos cachos.
Também disseram que ela agradeceria.
Ela não agradeceu.
Nem ficou muda, nem usou palavras, mas entristeceu-se e perdeu o viço.
Muito longe de sentir-se Bela, sentiu-se decadente.
As máquinas da modernidade, com seu peso absurdo, a oprimiram e asfixaram, e o óleo que frouxamente pingava delas não lhe trouxe qualquer benefício, não a nutriu, não a hidratou. Sufocou as poucas raízes que lhe sobraram intactas.
E Ela temeu a alopecia permanente como se teme a lepra.
Agora, ele chega falando de coisas que ela vira num passado já distante.
Coisas que andavam esquecidas. Coisas que provavelmente haviam morrido e sido enterradas com os antepassados dele.
Chega dizendo de sal e de suor.
Falando de delicadeza e de tempo.
Ele chega com reverência e até respeito. Já estava desacostumada.
Desconfiada, sentiu nele simplicidade, estranhou a falta de alardes.
Estranhou a falta da propaganda de algum "pacote" de qualquer cor ou outro produto milagroso.
E desta vez, no íntimo de suas entranhas, depois de ele ter terminado o trabalho, que comparado aos outros, era tão delicado e tão pouco invasivo, ela sentiu que ele falara a verdade e que lhe tinha afeto.
Ele fora atencioso e ela sentiu um certo rubor quando ele afastou com sutileza alguns galhos ressecados e algumas pontas secas.
Pensando bem, ele falava com ela e para ela.
E lhe parecia grato por alguma coisa obvia mas que ela não se lembrava.
Não sabia definir no momento.
Sentia-se quase certa de ele lhe era como um filho,
como se ela lhe fosse a mãe que o acalentava e educava.
De todo modo, mais tarde, de fato, ela lhe agradeceria.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Ana Primavesi - Sabedoria e experiência
DELÍRIOS DE UMA CIVILIZAÇÃO
Por Ana Primavesi
A terra gruda nos sapatos, suja os assoalhos e incomoda as pessoas da cidade, que querem tudo limpinho e se defendem contra a “sujeira”, asfaltando ruas e estradas e usando automóveis, para não pisar no barro.
A terra produz os alimentos e as colheitas comerciais como café, açúcar, cacau, algodão, chá-da-índia, guaraná e cana para o álcool-combustível, fibras como sisal e juta, óleos como o de mamona, babaçu e dendê e látex, e condimentos como pimenta-do-reino, cravo, canela e louro. Armazena água nos seus poros para as plantas e, em depósitos profundos, para as fontes e nascentes dos rios e das represas das usinas hidrelétricas.
A terra forma o nosso corpo, saúde e inteligência. Não porque a Bíblia conte que o homem foi feito de barro, mas porque um óvulo fecundado nunca formaria um corpo de nada. Ele fornece somente o padrão genético segundo o qual se forma o ser vivo. Mas o corpo é construído de minerais. E estes as plantas retiram da terra e os fornecem a todos os viventes. Do corpo decomposto ou cremado resta somente um punhado de cinza, mineral.
Antigamente, nós a chamávamos, com carinho de Mãe Terra, porque dela nasce e a ela volta o homem. E nos orgulhávamos de ser filhos da terra porque o que somos, os somos por ela. Em terra sadia e forte, seremos fortes, sadios, dinâmicos e inteligentes. Mas quanto ela é exausta, decaída, doente e devastada, nós, seus filhos, somos fracos, doentes e indolentes.
Jecas-tatus. Estudamos muito para descobrir por que a inteligência da juventude decresce e os currículos escolares têm de ser cada vez mais facilitados. Destruímos a alma no barulho e nas drogas e destruímos o corpo com alimentação biologicamente incompleta e condimentada por resíduos tóxicos. Depois nos admiramos de que o circuito alma-cérebro não funcione mais. É a terra, portanto, que nos faz progredir ou cair na miséria, sentir bem-estar ou nos arruinarmos, sermos poderosos e gloriosos ou submissos e escravos.
Lembram-se dos povos que sumiram da história? Dos sumérios, egípcios, etruscos, gregos, romanos, incas, astecas, mongóis e hunos? Foram arrasados porque se esqueceram dos campos. Um grande presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, disse: “Destruam as cidades e conservem os campos, que as cidades ressurgirão. Destruam os campos e conservem as cidades, e estas, sucumbirão”. Cidades vivem do campo. Não adianta. É a terra que as mantêm.
Quando a terra era jovem, vigorosa e virgem, uma vegetação exuberante a cobria e flores a enfeitavam. As árvores lhe davam sombra e as plantas, com suas raízes, a abraçavam carinhosamente e estendiam macia manta de folhas. Estava abrigada e protegida, zelada e amada. O sol a beijava furtivamente e a água da chuva a acariciava em suave deslizar. Era tudo festa.
E viemos nós, homens, em busca de alimentos. Ela podia dar e estava ansiosa para ajudar-nos. Tomava-nos por amigos e quis se entregar, como esposa dedicada. Mas nós não entendemos. Não quisemos amizade nem dedicação. Quisemos explorá-la, dominar e violar, estupidamente. Quisemos enriquecer rapidamente. E a arruinamos. Agora ela é fraca, doente, estragada, prostituta que todas usam e pela qual ninguém zela.
Sua pele macia se tornou incrustada, dura e rachada. Sulcos profundos marcaram sua face, cavados pelas lágrimas que a chuva lhe emprestou. Nós que sempre achamos uma palavra “científica” para explicar, chamamos a isso “erosão”. Chagas a cobrem como feridas de lepra, e nós as chamamos de “voçorocas”. Perdeu sua beleza, saúde e fertilidade. Não pode mais gerar colheitas fartas e nutritivas - mas somente esses pingos de safra, sem sabor e sem valor para a vida.
As plantas que cultivamos não formam mais unidade com a terra, não são mais “ecótipos”, como nós dizemos, não se adaptam ao que ela pode oferecer. Criamos plantas estranhas, muito estranhas, de hábitos exóticos. Embora ainda se chamem milho, arroz, algodão ou cana-de-açúcar, não pode mais usar o que a terra oferece, nem se satisfazer com o que ela pode dar. Não é mais mãe, mas simplesmente suporte. Temos de “adaptá-la” às nossas culturas, que não são mais amigas, e sim orgulhosas, desinteressadas, até hostis.
E nos orgulhamos de nosso trabalho genético e de nossos híbridos. Até as chamamos de HRV, ou variedades de alta resposta. Variedades que, na verdade, apenas suportam elevadas quantidades de adubos. A terra que, rindo, dava colheitas fartas, de repente não presta mais. É coberta com quantidades excessivas de calcário e salgada com adubos ácidos e agressivos. É compactada com máquinas pesadas e deixada nua, exposta ao sol abrasador e ao impacto de chuvas violentas. Banhada com fedorentos venenos as plantas amigas não nascem mais. Justo as que queriam curar suas feridas, revigorar sua vida e equilibrar os nutrientes. Mas nós, homens, não permitimos.
Quem quer bem à terra, nós perseguimos. A terra sente calor. Sua temperatura raramente fica abaixo de 42ºC, o que é demais para ela. Anda a até 85ºC. Ao invés de cultivar plantas, parece que pretendemos assá-las. Água quente, as plantas não conseguem beber. E a água que a terra guardou para elas o sol faz evaporar e o vento leva; numa folia louca – e o vento veio após a derrubada da mata.
A mata foi o termostato da natureza. Atraía a chuva. Agora, não há mais o que a atraia. Só chove quando as nuvens ficam muito pesadas. Aguaceiros. A terra não pode se defender contra sua força. A água, em lugar de entrar suavemente pelos seus poros, agora escorre. Dá enchente e depois vem a seca.
Terra quente não atrai chuva. Aquece o ar que sobe a até 80 quilômetros por hora, empurrando as nuvens para cima. Muitas vezes, esse ar quente arranca e leva a terra consigo para longe. E nós arrumamos outro nome para isso: “erosão eólica”.
Deus programou a terra para produzir plantas e grãos, árvores e frutas, ervas e essências. No seio da terra, a força divina programou a vida de maneira sábia e perfeita, com bactérias, fungos, pequenos animais, minhocas, zeladores do vigor da vida. Eles decompõem tudo que é fraco, doente, velho ou morto.
Mas toda essa vida rica e diversificada não existe mais. Nós não sabíamos? Parece que nunca sabemos o que estamos fazendo! A vida dependia de sua grande diversificação. E a comida da terra eram plantas mortas, matéria orgânica. Agora, criamos somente algumas espécies. Culturas de um único tipo de plantas, monoculturas que criam uma monovida, de uma ou duas espécies. E estas, mais cedo ou mais tarde, atacam as culturas, que defendemos com venenos.
Essa vida estranha cresce no seio da terra. Uma vida hostil, que não serve para nada, a não ser para ela mesma. Onde está o equilíbrio, a atividade fervilhante, colorida? Era uma luta de todos contra todos, mas a vida vigorosa sempre ganhava. Agora, ninguém luta mais contra ninguém, porque é uma vida uniformizada, monótona, que ataca suas culturas uniformizadas, monótonas e mal nutridas. Nas cadeias alimentícias, cada um era presa e predador. Hoje, dizemos que “falta o inimigo natural”. Nunca ninguém foi inimigo no seio da terra. Ou nós somos inimigos dos frangos, porcos e bois? Nós os criamos para comê-los, mas inimigos não são.
Quebramos as cadeias alimentícias e, assim, criamos pestes e pragas. É admirável, quantos insetos e fungos são capazes de mudar seus hábitos e viver de plantas vivas – mas não tão vivas… Se o fossem, ninguém poderia atacá-las. São suscetíveis. Você não pega gripe ou tuberculose se não é suscetível. Pessoa forte, bem alimentada, bem nutrida, não pega doenças. E nas plantas não é diferente. A terra fornecia até 32 nutrientes para cada planta. Nós damos somente quatro, no máximo seis nutrientes. E nossas plantas não conseguem nada do seio da terra, porque nós fabricamos uma laje bem dura, em 12 ou 15 centímetros de profundidade, que as raízes não podem ultrapassar. Então, são obrigadas a ficar bem perto da superfície e viver só de nossos adubos. E gordas, como bebês criados com mingau, mas fracas, precisam de venenos cada vez mais tóxicos, contra o que restou da vida, e os últimos “inimigos naturais”. Mas assim criam pragas resistentes, porque a natureza tenta adaptar-se. Criam então “inimigos naturais” e os soltam. Mas quem os controlará?
Sempre tentamos “dominar” a natureza e nos esquecemos de que somos somente um fator do ecossistema, uma ínfima parte da natureza somente destruímos. Como diz o poeta Paulo Eiró: “Os homens sonham monumentos, mas só ruínas semeiam para pousada dos ventos!”
Não conhecemos nem nosso próprio organismo. E a terra é um mecanismo mais complicado. Usamos relógios ou carros, mas poucos sabemos como funcionam, também a terra, poucos sabemos como funciona. Estudamos fator por fator, mas quando desmontamos tudo não sabemos mais montar. Esperamos que todos os fatores sejam como peças numa prateleira. Mas não existe coisa nenhuma totalmente isolada neste mundo.
A terra é um organismo, um conjunto que tentamos mudar arbitrariamente. Não ganhamos nada com isso. Somente submergimos numa luta desigual contra a natureza. A terra é parte do meio-ambiente. Como nós. E numa luta contra a natureza, esta sempre será mais forte. Achamos que não é verdade, porque nunca o mundo teve tanta gente como hoje. Mas por uma lei natural, cada espécie que se multiplique demasiadamente se auto-extermina, por fome, por degeneração, pela luta de todos contra todos. É como disse Jesus: “Céus e terra desaparecerão, mas minha palavra não desaparecerá”. E a palavra de Deus são de leis segundo as quais tudo funciona, dos átomos às constelações de estrelas, do micróbio ao homem.
A terra está mal. Horrivelmente mal. A água que percorre a terra está carregada de tóxicos e de sais de adubos. Substâncias estranhas que tornam os rios viscosos, mortos, fedorentos. Antiga fonte de vida e fertilidade, os rios, atualmente trazem a morte por onde passam.
Nós pensamos que se ela, a terra, estiver arruinada, existe ainda a saída para o mar. E como podemos esquecer que a vida no mar depende da vida na terra? O mar não é um pote cheio de peixes, mas um imenso deserto aquático, somente habitado onde chega o húmus da terra. E onde a terra está estragada, o mar é morto.
O que fizemos da terra “mãe gentil” agora tornada campo de batalha? E ela é ainda responsável por nossos filhos. A terra que estragamos não é nossa, mas apenas emprestada de nossos filhos…
Da terra dependemos nós e nossos descendentes – sua vida ou morte. Com a terra luta toda a natureza. Se um embaixador chega a um país, ele é tão forte como a nação que representa. E a terra representa a natureza, o universo, a vontade de Deus. Poder ser a amiga que leva ao progresso e ao bem estar. Mas se a maltratarmos, a natureza nos destrói.
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